terça-feira, 14 de abril de 2026

Santuario de Fauna y Flora Iguaque - Boyacá, Colômbia

Em 2026 realizamos o grande sonho de visitar o querido amigo e colega de mestrado Leo em sua terra natal, o departamento de Boyacá na Colômbia. Após 9 anos sem nos encontrarmos, eu e Laís fomos recebidos com grande carinho pelo amigo e sua família, com toda a fartura que se possa imaginar. De prosas, paisagens e arepas.


Recepção em Tunja com arepas, almojábanas e aguapanela (con queso)


Nos primeiros dias a 2.800 metros de altitude o fôlego pesava. Porém, sem maiores complicações do mal de altura. Após belíssimos passeios em Tunja, Duitama, Nobsa, Iza, Laguna de Tota, Aquitania, entre outros pueblos – aliás, genial o conceito deles de pueblear, isto é, sair visitando pueblitos (cidadezinhas) para conhecer seus casarios e praças, além de provar comidinhas locais –, chegou enfim a hora de pedalar.


Leo nos levou até a casa de familiares na graciosa Villa de Leyva, onde passamos alguns dias. Agora com bicicletas à mão e pulmões menos sofridos, não só pela altitude em 2.100m, mas pelos 10 dias de adaptação. Por lá puebleamos mais uma vez, não apenas na vila tipicamente colonial, como também pelas redondezas. A região tem solos de origem sedimentar com abundância de icnofósseis. A atenção é ainda mais disputada entre as paisagens no horizonte e a paleontologia no chão, onde você provavelmente vai chutar um deles (literalmente). Sem contar a valiosa argila que dá forma a um dos maiores polos de artesanato em barro no país: Ráquira.


a: Villa de Leyva, b: vales sedimentares, 

c: dinos em Sáchica, d: icnofóssil, 

e: artesanato, f: Ráquira.


Os três dias nos arredores de Villa de Leyva foram de clima um pouco abafado, um bochorno como se diz por lá. Nada que as belezas do lugar não amenizassem, ou então aquela chuvinha ligeira como as nossas de verão. Pra nós foi curioso o fato de que qualquer nuvenzinha diante do sol já aliviava absolutamente o bochorno, te fazendo cogitar um casaco.


Na noite de véspera para o regresso à Tunja, distante 40km dali, eu estudava três opções: tomar um ônibus, pedalar pela rodovia ou... atravessar o páramo. Laís já tinha carona garantida e não precisava levar uma bicicleta até Tunja. A decisão e as consequências seriam apenas minhas, então. Logo descartei o ônibus. Não podia perder aquela chance de girar por ali. Qualquer que fosse o caminho, teria subidas acima dos 3.000m. Então, dependia somente do clima pra decidir ou não pela montanha – muito mais desafiadora em suas estradas de terra no páramo do que pela rodovia pavimentada. E a previsão do tempo era muito boa para aquela sexta-feira. Já havia chovido tudo o que era pra chover. Tracei as rotas e joguei no gps; na dúvida, aí estavam as duas.


Dormi bem. Acordei às 06h e me deparei com um belo céu bem aberto nas montanhas. Tomei minha decisão. Subir.


Amanhecer encorajador em Villa de Leyva


Nosso anfitrião, Sr. Néstor, ofereceu um desayuno caprichado: ovos, almojábanas, maçãs e uma farta caneca de chocolate. Embora a seus olhos tenha sido pouca comida em relação ao que é um típico café da manhã colombiano (por exemplo, pesquise o que é um tamal e tire suas conclusões), para mim aquilo já foi uma arrancada e tanto.


Saí 07h5min. Os dois primeiros quilômetros atravessavam a cidade. Logo no início, um presságio. A rua que tomei era a única que estava em obras, bastante enlameada e esburacada. Largada oficial dos perrengues.


A subida começou ainda nas margens do pueblo. Ritmo lento. Eram praticamente 15 dias sem pedalar e mais de um mês sem treinar forte, lidando com um estiramento na coxa. Manter os batimentos abaixo de 150 bpm já estava difícil, e mal havia começado. Nisso, escuto uma respiração ofegante e vem vindo um escarabajo – termo usado para se referir a besouros, fuscas e, orgulhosamente, aos ciclistas colombianos nas montanhas. Era um trabalhador em sua rota diária. Conversamos sobre minha rota. Me disse que "nos seus tempos" costumava pedalar até Tunja pela rodovia, e que era possível sim fazer meu caminho pela terra. Injeção de confiança.


Segui sozinho e logo tive dificuldades pra algo bem simples: encontrar o início da trilha. A estrada seguia sem bifurcações, mas havia uma bifurcação na rota do gps. Após ir e voltar, entendi. Meu acesso era atravessando um riacho onde havia em meio à mata uma placa desencorajando motociclistas, cavaleiros e ciclistas. Aí vamos nós, ao Santuario de fauna y flora Iguaque.


Acesso à trilha


A trilha começou forte, com rochas grandes e subidas inclinadas. Era a largada para um trecho que assim seguiria por 3,4 km com 650m de ascenso, num aclive médio de 18%. Logo vi que a missão seria muito dura. Cogitei seriamente retornar, desistir. Ainda dava tempo. Pois me ocorria o seguinte: as pedras eram muito altas e a cada degrau precisava levantar a bicicleta pra passar. Nesse esforço o coração subia rapidamente a 150 batidas e eu me obrigava a parar, pra não sair do planejamento cardíaco em altitude elevada. Acho que o seguro viagem não cobre resgate com helicópteros nem mulas.


Trilha para o páramo de Iguaque


O jeito foi parar e apreciar a vista praticamente a cada 5 ou 10 metros empurrados. O céu aberto descortinava uma Villa de Leyva espetacular, em suas ruas, morros e estufas de tomateiros. Fotos, fotos e fotos.


Vista para Villa de Leyva


E aí, outra surpresa. Excelente sinal 4g. Familiares e amigos de perrengues foram recebendo imagens em tempo real, enquanto o pobre coração tentava regressar aos 120 bpm. Logo encontrei três caminhantes que desciam pela trilha. Temi que fosse algum guarda-parque a me impedir. Mas eram locais em sua caminhada, muito impressionados com meu intento. Gostaram de saber que era brasileiro. Mostrei a bandeira em meu ombro esquerdo. Não hesitei em dizer que isso nada era perto de Nairo, minha inspiração. Seguimos com sorrisos no rosto.


Assim, as primeiras duas horas foram se passando e a confiança aumentando. A perícia de empurrar foi atualizada, e o fluxo sanguíneo 'despiorou'. Ia fazendo as contas, e a estimativa de chegar às 12h em San Pedro de Iguaque era bastante irreal (calculei que levaria 5 horas pra fazer os meros 16 km...). Mas tinha faróis e corta-vento pra enfrentar a noite, caso me alcançasse. Pra comer, tinha uma maçã, saborosas balinhas de caramelo do pueblito de Iza, e dois pacotinhos de bolacha salgada. Embora fosse pouco, não me faltou comida, graças ao desayuno caprichado.


Depois de avançar sobre muitos e intermináveis pedregulhos, parei pra contemplar pela centésima vez. Eis que surge uma senhora conduzindo sua mula, sendero abaixo, carregada de curubas (uma fruta andina). Fica espantada com minha presença junto da bicicleta, me informa que dali em diante melhoraria a estrada, e segue despencando lentamente. Quase tarde demais lembrei de tomar uma foto. É que estava um tanto orgulhoso dos espantos alheios, me permitindo uma frestinha de heroísmo. Acho que viajar de bicicleta também tem um pouco disso.


Campesina boyacense


E a senhora me aconselhou bem. Daí em diante não tinha mais escadas, porém continuaria empurrando rumo ao páramo. Sai a escadaria, entra a rampa. Dos males, o menor. Ali, aos 2.900 m, havia um território agrícola no ambiente de alta montanha. Da atividade humana eu via sobretudo criação bovina leiteira e muares. As paisagens continuavam me chocando, e estava ansioso pra entrar definitivamente no páramo, passo por passo (ainda não era capaz de pedalar).


Zona de alta montanha no Iguaque


Chegaram os 2.900m e depois os 3.000m. Agora sim: oficialmente páramo. A vegetação tinha muitos musgos, valiosos para aumentar a superfície de contato com a umidade das nuvens. Assim são esses ecossistemas que potencializam a recarga e abastecimento de água para milhões de humanos e não humanos da Colômbia, Venezuela e Equador – dentre os poucos no mundo que podem se orgulhar de terem páramos.


Bosque altoandino na transição para o páramo, em Iguaque


E assim estava realizando um sonho há mais de 10 anos plantado pelo amigo Leo. Só faltava uma coisa: o protagonista desse ambiente. Não sabia se ia encontrar frailejones nesse páramo, pois ali é particularmente povoado de árvores. Em minha inocência, pensava que frailejones e árvores não cresciam juntos. Aos 3.150m veio uma tripla surpresa. Pela primeira vez na vida estava diante de um frailejón. E era um dos grandes, com mais de 1 metro de altura. Momento de puro extravasamento. Emocionado. Ou melhor, com olhos emparamados.


Frailejón da espécie paramiflos glandulosus


E ainda por cima tinha sinal 4g pra compartilhar esse momento com Laís e Leo. Ele sequer sabia que eu estava enfiado a essa altitude. Deve ter ficado um tanto preocupado, pois minha condição não era de dar muita confiança.

Como ia dizendo, foi uma tripla surpresa. Não só encontrei um frailejón dos grandes, como também estava florido e era de um tipo que eu nunca tinha visto. Muitas emoções combinadas. Os frailejones só existem naturalmente nos páramos, e jogam um papel importantíssimo na captação de umidade, pois formam verdadeiros filtros receptores quando atuam conjuntamente onde outras plantas não conseguem estar. Justamente em frios e instáveis campos de altitude. Daí em diante foi uma festa, pois eles e suas flores estavam praticamente por toda a parte. As nuvens foram se acercando, e a cidadela lá em baixo era cada vez menor.


Nuvens, frailejones, bicicleta e Villa de Leyva


Finalmente alcancei algo que parecia estar próximo do cume. Começo a dar as primeiras pedaladas desde que iniciei a escalada. Me aproximava dos 3.300m. Atingi outra face da montanha, passando a ver no horizonte mais fincas e menos ruas e estufas. Outra espécie de frailejón predominava nesse trecho, com folhas mais largas e flores já secas. Eram praticamente rasteiros, indicando que seu tempo de vida não era longevo. Essas plantas crescem entre 1cm e 2,5cm por ano. Por isso fiquei tão impressionado ao encontrar logo de cara um ser de 1 metro e, quem sabe, uns 100 anos. No trecho mais próximo do cume eles não tiveram a mesma sorte. As queimadas e o avanço agropecuário em busca de maiores altitudes são fortes ameaças a esses ecossistemas.


Jovens frailejones nos arredores do cume do Morro Negro


Ainda com bastante medo de ficar com mal de altura, atingi o ápice e comecei uma suave descida. Era minha primeira vez morro abaixo em uma MTB aro 29, com seus gigantes pneus 2.3, suspensão funcional e freio hidráulico. Gracias pelo empréstimo, Leo. Suave descida. O sol aparecia em meio às nuvens, mas preferi colocar o corta-vento, mais por precaução do que frio. A vista de San Pedro de Iguaque era linda, o pueblo ia se aproximando.


Descendo para San Pedro de Iguaque


Como um típico gaúcho orgulhoso pela tolerância ao frio, logo tirei o casaco e segui. Já foram aparecendo as lavouras de batata, os tratores, as vacas, as ovelhas e o centrinho. Os primeiros agricultores que encontrei por ali citaram marcas de implementos agrícolas que vinham do Brasil. Também queriam ouvir algumas palavras de meu português. Me agradava provar que era um hermano brasileño e não um gringo, como minha aparência poderia sugerir. Até porque cada qual traz na bagagem, involuntariamente, uma longa história que o fez chegar até ali. Eram 13h e a linda praça tinha mais de 20 pessoas por aí convivendo, boa parte vestidas com suas ruanas.


San Pedro de Iguaque


Tentei almoçar no pueblo. O restaurante estava apinhado. Após alguns minutos aguardando em pé, uma das duas mulheres que ali operavam a todo vapor se desculpou porque não tinha mais comida para me servir. Dias depois descobri que os homéricos restaurantes-de-uma-pessoa-só são comuns nesses municípios. Uma só mulher prepara, atende, serve, cobra e limpa. Mas logo ali em frente também tinha uma padaria com toda sorte de amasijos, isto é, guloseimas de farinhas e queijos, especialmente milho e cuajada. Peguei algo similar a arepas com queijo e presunto, acompanhadas de um tintico campesino, ou seja, café com leite, adoçado com panela (açúcar mascavo).


Arepas e tinto no almoço


Duas alegres crianças curiosas estudavam a bicicleta e a janela onde eu estava comendo. Pareceram reconhecer a bandeira do Brasil quando a apontei. Depois de conversar um pouco com a dona da padaria, saí tranquilamente já com aquela alegre sensação de que "o pior já foi". Estava aos 1.950m e dali em diante ia seguir em asfalto até os 3.200m, para depois degustar 20 quilômetros praticamente só em descida. Naquele relance ainda deu tempo de conversar com a mulher do restaurante, que ao me ver saiu de sua porta e veio cordialmente até mim pedir desculpas pela superlotação. Segui fazendo muitas fotos, pois o verde daquele lugar e sua intensa vida camponesa me sensibilizavam.


Plantações de batata e pastagens em San Pedro de Iguaque


E me sensibilizavam particularmente do ponto de vista de um filho de camponeses, tal como vivi meus primeiros 17 anos de existência. Foi revigorante observar na América do Sul um outro campo possível. Sobretudo do ponto de vista do Brasil, um país há muito tempo hostil à agricultura feita por famílias fornecedoras de alimentos à sua própria gente trabalhadora, com governos mais favoráveis ao negócio de empresários exportadores de ração e carne. Ao invés de vazios campos de soja e fazendas de gado, um lugar com muitas famílias nele vivendo, em um espaço de beleza deslumbrante, com dignas casas, múltiplas lavouras, ricas montanhas; e tendo como base a agricultura e a pecuária (não exclusivamente o turismo ou a especulação imobiliária).


Fincas em Boyacá


As mais de 30 variedades de batatas e de milhos nativos dessa região se faziam aí representadas, heranças dos povos indígenas de nosso continente. Embora atacados de toda forma pelo colonialismo-imperialismo-capitalismo, esses povos e legados seguem existindo em manifestações diversas, nem sempre tão óbvias. Duas ou três vezes fui surpreendido por senhoras apressadas andando pela estrada carregando algo lanoso em seus braços. Estava diante da transformação da lã em linha por habilidosas artesãs boyacenses. Quando me dei conta disso, pedi humildemente uma foto para uma delas, pois precisava muito compartilhar aquele momento com minha mãe. Dias depois fui saber que esse artesanato é outra continuidade histórica entre os milenares povos muíscas dessa região e a atualidade, onde essas descendentes de indígenas perpetuam a técnica de "hilar". Antes com fibras vegetais, hoje com lã.


Representação artística de uma campesina hilando


E ali algo me passava pela cabeça. Vinham nitidamente à memória imagens vistas na televisão da volta ciclística Tour da Suíça, em suas rotas entre campos verdejantes, moradias e jardins. San Pedro de Iguaque me exibia toda essa beleza e algo mais. E, se não fosse pelo contato com o amigo Leo, provavelmente eu nunca soubesse que algo semelhante existe por aqui, em nosso continente. Porque San Pedro não fica na Europa. Lá, no outro lado do Atlântico, a curiosa e instável coexistência entre oligarquias financeiras lado a lado com a disponibilidade de boa infraestrutura, bem-estar social e até subsídios diferenciados para manter os agricultores se explica em boa medida pela drenagem de recursos daqui e de outros territórios dependentes, ciclo após ciclo, dia sim e dia também, até hoje. Veias abertas e doloridas demais pra serem dissecadas nesse relato...

 

Talvez seja mais emoção do que razão, mas me pareceu que Boyacá em alguma medida enfrentou essas contradições e foi capaz de manter mais gente que vive bem no campo em comparação com o alto do Vale do Taquari, onde nasci e cresci.


Bem, é hora de voltar ao ciclismo.

Em meio àquela prazerosa contemplação, escuto um som de bicicleta se aproximando. Em uma subida, fui ultrapassado por um escarabajito. Sim, um guri de uns 12 anos, todo ciclista, estava clipado, de bermudas e com casaco corta-vento de bolinhas aberto e esvoaçante, em posição de ataque na sua mtb. Meus batimentos já iam pra lá dos 150, mas não podia perder a oportunidade de acompanhar esse jovem Nairo Quintana voltando da escola. Era o jovem mito se materializando em minha frente.


Street View + ChatGpt e aí está a memória recriada


Ataquei com tudo o que pude, pra chegar junto com ele no topo. Conversamos por uns dois quilômetros, antes que cada um seguisse por seu caminho. Regressava da escola na bike em que também competia, como comprovava a plaquinha ainda ali presa, exibindo a numeração de atleta que carregou em alguma prova recente. Perguntou se eu era mesmo brasileiro, e me encorajou para o restante do caminho.


Tal qual informou o jovem escarabajo, esse trecho final seria puro deleite. Montanhas, lavouras, casas e sinuosos caminhos pela crista da serra. Vistas longínquas de povoados, estradas e nuvens simplesmente deslumbrantes. Não vem ao caso detalhar o assunto das nuvens, mas pessoalmente fiquei muito encantado com seus desfiles entre páramos e vales, únicas a cada dia.


Boyacá


Assim foi chegando ao final um dia inesquecível. De vilas históricas, trilhas inclinadas, páramos, pueblos e muita vida nos Andes.


Nunca pensei em fazê-lo nem tive motivação para escrever detalhadamente sobre uma pedalada. Mas dessa vez foi a pedalada que pediu pra ser transcrita, mesmo que limitada pelas percepções finitas do autor.


Termino por aqui. Se puder, dê uma chance pra conhecer Boyacá e a Colômbia.

E, por favor, não esqueça de provar as papas criollas.


Santuario de Fauna y Flora Iguaque - Boyacá, Colômbia

Em 2026 realizamos o grande sonho de visitar o querido amigo e colega de mestrado Leo em sua terra natal, o departamento de Boyacá na Colômb...